9.4.11




Salve, amores!


Ah, amores meus!

Por favor, parem de achar

q vou salvá-los de algo

O algo é vcs

e ninguém salva ninguém de ninguém

Aliás, do q mesmo precisam ser salvos?

Livre arbítrio

Lembram?

Quem me salva de mim qdo amo?

23.2.11





POR UNA CABEZA

Vinha da casa ao lado a música. Na primeira vez que a ouviu reconheceu de imediato: “Por una Cabeza”, de Gardel. A cena de Al Pacino, cego, dançando o tango com uma desconhecida, em “Perfume de Mulher” era uma de suas preferidas desde sempre. Ficou feliz por ter um vizinho que, provavelmente, compartilhava o gostar.

Àquela primeira vez seguiram-se muitas, na verdade em alguma hora do dia, todos os dias, a música tocava na casa ao lado. Se algum dia não a ouvia é porque, provavelmente, não estava em casa quando tocou.

Numa madrugada ao chegar de uma festa, ou bar, tanto faz, foi tomar banho e às 3 da manhã lá estava ela, tocando baixinho pra não incomodar os vizinhos, indubitavelmente ela: Por una Cabeza, Gardel. Não, vizinho, não incomodou em nada, alias, a cerveja na cabeça, o calor, a água escorrendo, a música... quase um orgasmo.

O único problema é que a musica ficava em sua cabeça por horas. No dia em que a ouviu bem cedinho e logo depois foi fazer feira, teve a impressão que escolhia as laranjas com movimentos sincopados, que cada ida sua em direção à próxima barraca era acompanhada por volteios de pernas e baixadas de olhos. Mas, deve ter sido impressão já que não se lembra de ninguém a olhando de modo estranho e, bom...gente a olhando de modo estranho nunca faltou, acho que nem perceberia mais.

Começou a imaginar quem seria a pessoa que ouvia Gardel todos os dias, esse Gardel. Os vizinhos tinham se mudado praí recentemente, nunca prestara muita atenção neles, a não ser que haviam transformado o pequeno jardim num deck, que os carros dormiam na rua, apesar de terem garagem (pra que usariam a garagem?), que tinham um cachorro grande com cara de bravo e que não havia crianças na casa.

Uma vez vira um homem, jovem e careca que saía da casa na mesma hora em que ela. Ele até fez um aceno de cabeça, educadamente correspondido, mas sequer reparara se era feio ou bonito. Ela estava com pressa, como sempre e bom...isso foi antes da música. Havia também um homem mais velho, sabia porque as vezes discutiam alto, o mais velho e o mais moço, mas novamente nunca prestara muita atenção no que falavam, já que não era da sua conta. Tinha também uma mulher, jovem talvez, que pendurava roupas, cantarolando as vezes e era só pelo cantarolar que intuía que ela era jovem. Haveria uma velha? A mulher do velho, cuja voz nunca ouvira? Seria ela quem ouvia “por una cabeza” diariamente, recordando os dias em que bailava tango com o velho? Será que eles saiam dançando pela casa, com passos agora comedidos? Seriam os mais jovens um casal? Irmãos? Sonharia a moça em ser a desconhecida guiada num tango por um Al Pacino cego?

Ficou cheia de vontade de aprender a dançar o tango. Já o sabia em seu pensamento. Seu corpo, cria, não teria dificuldade em aprendê-lo. O tango! O homem geralmente boêmio, jogador e chifrudo. A mulher quase sempre uma vadia, falsa, que “jura sorrindo o amor que está mentindo” é a causadora de toda angústia e desgraça masculina. Isso nas letras, pois no dançar, a mulher, sempre aos pés do homem parece submissa. Só parece, porque observando melhor, o homem pega forte no tango, muito mais que o necessário para apenas conduzir, como em outras danças de casal. Os gestos dizem: Ela é minha! Mas ela é tão poderosa, que se não a pegar forte, ao mesmo tempo em que a seduz fazendo-a crer que não está nem aí, ela escapa. Ah, mas isso é tudo firula do pensamento.

Só o que sabe é que adora o(a) vizinho que ouve diariamente Gardel. E que sai dançando sozinha pela casa, de olhos fechados, sendo ao mesmo tempo a desconhecida e o cego a lhe guiar.